Ousadia e lucro
O dia 16 de agosto marcou uma mudança de comportamento do mercado financeiro nacional. Nesse dia, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) chegou a despencar perto de 9% em meio a uma queda generalizada das bolsas mundiais. No momento em que o pregão registrava queda de quase 9%, os fundos dispararam as ordens de compra e a Bovespa encerrou o dia com baixa de apenas 2,5%, minimizando os efeitos no Brasil da crise dos créditos hipotecários de alto risco norte-americanos - os subprime.
Ao contrário do que ocorreu em 2006, quando o Tesouro Nacional acabou comprando os títulos da dívida do governo para evitar uma crise maior, quem fez desta vez esse papel foram os fundos de pensão que partiram para a compra de ações na bolsa e também de bônus, como informaram os especialistas do mercado presentes, na semana passada, no 3º Congresso Internacional de Derivativos, organizado pela Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) em Campos do Jordão (SP).
O diretor da Abrapp e superintendente da Sociedade de Previdência Privada das Instituições do Mercado Aberto (Previma), Antonio Jorge da Cruz, explicou que os fundos de pensão aproveitaram a oportunidade da forte queda dos preços e fizeram o movimento contrário ao da maioria dos investidores, aumentando sua exposição no mercado de ações e também partindo para a compra de títulos públicos mais rentáveis neste momento.
"A crise abriu uma grande oportunidade de compra de ações, pois muitas empresas, que estavam caríssimas antes da crise, tornaram-se verdadeiras pechinchas, como a Vale do Rio Doce, cujas ações baixaram de R$ 90 para cerca de R$ 60", afirmou o diretor.
De acordo com Cruz, esse comportamento mais agressivo dos fundos de pensão durante o momento de stress com a crise ajudou a Bovespa a ficar em um patamar mais confortável. "Os fundos tiveram uma participação nesse resultado, mas ela não foi a única, uma vez que também foi detectada uma movimentação de investidores estrangeiros em busca de boas oportunidades no mercado de ações", acrescentou.
O diretor financeiro e de investimentos da Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, Ricardo Malavasi, lembrou que os momentos de forte queda nas bolsas são quando se abrem as melhores oportunidades de compra de ações.
Defesa contra a crise
Os fundos de pensão foram essenciais para amenizar os estragos do estouro da bolha imobiliária dos Estados Unidos nos mercados financeiros brasileiros. As fundações, que detêm patrimônio superior a R$ 400 bilhões, entraram pesado na compra de ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e substituíram o Tesouro Nacional na recompra de títulos da dívida pública de longo prazo, que estavam em poder de investidores estrangeiros.
Na avaliação do secretário-adjunto do Tesouro Nacional, Paulo Valle, o fato de o próprio mercado — por meio de investidores importantes como os fundos de pensão — agir para tirar proveito das turbulências mostra o tamanho da evolução da economia brasileira. "Os próprios agentes do mercado buscam as soluções em momentos de maior turbulência. E o melhor é ver que os fundos de pensão ficaram mais ágeis para as boas oportunidades de compra que surgem no mercado", reconheceu.
Valle ressaltou que as fundações também foram muito ativas nos leilões de títulos de longo prazo realizados pelo Tesouro na última semana. Foi a primeira venda desses papéis — com vencimentos em 2017, 2024, 2035 e 2040 — desde o estouro da crise imobiliária dos EUA.
O secretário destacou ainda que a situação é bastante confortável. "Este ano tem sido muito bom para a gestão da dívida pública. Todas as metas foram atingidas e o mercado mudou sua percepção de risco", acrescentou.
Para o presidente do Banif Banco de Investimentos, Paulo Pinho, movimentos conjuntos de fundos de pensão em momentos de crise, como os das últimas semanas, são saudáveis e não devem ser vistos como operações coordenadas para criar preços artificiais dos ativos. "As fundações não estão preocupadas com o curto prazo. Aproveitam, sim, oportunidades específicas para fazer bons negócios e, com isso, garantir lucros que se sustentarão no longo prazo", disse. "Não tenho dúvidas de que, no meio de toda a crise, os fundos de pensão encontraram excelentes oportunidades de lucros, tanto no mercado de ações quanto no de títulos públicos", concluiu.
* Com informações da Gazeta Mercantil e do Correio Braziliense.