Artigo
Débora Nogueira *
A segunda metade do mês de julho foi marcada por uma mudança de sentimento do mercado e uma importante queda dos preços dos ativos globais. O Ibovespa acompanhou o movimento de perdas dos mercados mundiais e chegou a marcar queda de 22% em relação à pontuação recorde (58.300 pontos).
Tal movimento dos ativos deveu-se às preocupações com relação ao setor imobiliário norte-americano e o impacto dessa recessão sobre o setor financeiro e sobre a economia real.
O forte crescimento do mercado imobiliário norte-americano teve início em 2001, quando o banco central norte-americano promoveu uma política de elevada liquidez, com juros muito baixos por muito tempo, para combater o risco de depressão mundial. Com juros em apenas 1% ao ano nos Estados Unidos, criou-se um ambiente favorável para exageros de crédito imobiliário.
Com o aumento da procura por casas, os preços dos imóveis passaram a crescer cerca de 10% ao ano. Assim, muitos cidadãos optavam por tomar empréstimos, ainda que a renda fosse insuficiente, por conta da expectativa de manutenção da valorização dos preços dos imóveis. Como o lucro dos corretores era baseado no volume de crédito concedido e a inadimplência permanecia baixa, passou a ser crescente o volume de crédito cedido no segmento “subprime”, ou seja, de menor qualidade.
O ciclo de aperto monetário teve início em junho de 2004 e saltou de 1% para 5,25% em junho de 2006. Os juros mais altos tiveram uma repercussão imediata no comportamento da demanda por imóveis novos o que, por sua vez, acarretou queda do preço das casas. Os preços menores dificultaram a situação de devedores que dependiam de sua contínua apreciação para especular e refinanciar hipotecas.
Desde o final do ano passado, temos observado uma elevação da inadimplência dos setores de crédito imobiliário, o que não inibiu a tendência altista dos preços dos ativos globais. A recente ‘crise’ nos mercados ocorreu quando se passou a observar os impactos da crescente inadimplência sobre as operações securitizadas com base em créditos imobiliários e outros mercados de dívida corporativa, bem como nas colocações de dívida para fusões e aquisições de empresas. Problemas com fundos de investimento e congelamento das contas para saques causaram temores adicionais.
Não é fácil mensurar quais são perdas com o aumento da inadimplência do setor imobiliário, mas estima-se que as perdas não superariam US$ 180 bilhões. A preocupação cresce quando se questiona acerca do padrão de consumo do norte-americano e se ele mudará seus gastos quando perceber que as condições de crédito estão mais restritas.
Apesar das preocupações com o rumo da economia norte-americana, o resto do globo segue exibindo forte crescimento. Europa, Japão e China seguem com robusto crescimento do PIB. Os balanços das empresas, por sua vez, seguem saudáveis e com baixo nível de endividamento. Mesmo na economia norte-americana, os indicadores inflacionários positivos levam a acreditar que o Fed poderá cortar juros para evitar uma desaceleração mais severa da economia.
(*) Economista da Fator Administração de Recursos