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Aposentadoria e trabalho

by Clarissa last modified 05/01/2007 11:10

Artigo

Rogio Lima*

A aposentadoria é um marco na vida do trabalhador e muito se discute sobre o seu significado para o indivíduo que envelhece. Há duas teorias nesse campo: uma que identifica a aposentadoria como momento de realização e possibilidade de desenvolvimento pessoal; outra que a ela atribui efeitos nefastos como fonte de doenças e declínio geral da saúde.

Aposentar-se pode ser bom ou mau em função de variáveis relacionadas ao trabalho em si (desgaste físico e mental, interesse pela atividade, satisfação profissional, remuneração, rede de amizades), bem como à vida do individuo de modo geral (saúde, segurança economia, projetos futuros).

Enquanto sofre as pressões do mundo do trabalho, é comum se almejar a aposentadoria como libertação e recompensa pelo esforço de anos dedicados à profissão. Entretanto, quando se concretiza a saída do mercado de trabalho, o indivíduo tende a diminuir os seus contatos sociais e corre o risco de mergulhar no vazio pelos efeitos do empobrecimento, da baixa auto-estima, ou da desqualificação de que se faz acompanhar o processo.

A primeira conseqüência é que, exceto para alguns setores minoritários da classe trabalhadora, a aposentadoria significa perda de rendimentos e impõe a necessidade de redefinição do padrão de vida e a busca de nova ocupação como meio de renda complementar.

À perda econômica soma-se, em muitos casos, a perda da própria identidade social. O trabalho é tão onipresente no período da chamada vida ativa que tende a confundir-se com a própria vida. É pela identidade profissional que o indivíduo se apresenta e se reconhece como ocupando um lugar na engrenagem social. A aposentadoria fecha o ciclo do trabalho e retira do indivíduo esta que foi sua marca por tantos anos. Não há mais diferenciação de papéis e status pelas profissões, mas o rótulo de aposentado, que a todos iguala e que pode gerar questionamentos sobre como sentir-se útil e produtivo fora do mercado de trabalho.

A própria definição de inativos atribuída aos aposentados já traz em si uma conotação pejorativa.  Numa sociedade que valoriza intensamente o trabalho e a produção, bem como as qualidades da juventude, abre-se um campo para preconceitos sobre o potencial e a capacidade da população que se aposenta. 
Em verdade, porém, a aposentadoria é um direito conquistado pelos trabalhadores e crescentemente ameaçado na realidade de desemprego maciço em que vivemos.  Parcelas enormes de trabalhadores vivem o medo de não conseguir se aposentar por desempregar-se antes do tempo, numa idade em que uma reinserção é quase uma impossibilidade pela intensa concorrência com os mais jovens.  Nesse contexto, velho pode ser o indivíduo de 40 ou 50 anos que perde o seu lugar na precoce rotatividade de gerações.

A falta da aposentadoria constitui grave e crescente problema devido ao desemprego e à expansão do mercado informal, é necessário ainda afirmar o impacto negativo da aposentadoria, sobretudo pela escassez de opções para a manutenção da vida social das pessoas que chegam a exercer esse direito.  Sem saber como preencher o tempo livre que dispõem, muitos aposentados trilham um caminho de inatividade e isolamento, confirmando o caráter ambivalente da aposentadoria.

O Ideal não é uma forma de aposentadoria, que ao lado de outras leis, tentam amparar a velhice e terminam contribuindo para sua marginalização; mas sim, opções que incorporadas dessem condições ao aposentado de viver melhor. É preciso que, ao deixar de ser produtivo na vida profissional, o aposentado passe a ser um individuo útil como cidadão, seja na vida social, familiar, política, cultural, ou esportiva. Que o aposentado não se sinta o marginal da era produtiva, mas sim, compensado pelo dever cumprido e que goze esse período como o que há de melhor na vida.

(*) É formado em Contabilidade e Gestão Financeira, pós-graduando em Auditória e Perícia e atua como coordenador administrativo-financeiro na FACEAL.


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