“Imagem é quase tudo”
Há quase trinta anos, que serão completados em 2008, o médico Luiz Tenório Oliveira Lima é um estudioso do comportamento humano. Formado em medicina pela Universidade Federal da Bahia, com especialização em psiquiatria e clínica psicanalítica, foi professor da faculdade de Medicina da USP e trabalhou no Hospital do Servidor de Público de São Paulo. Atualmente, além de sua clínica particular, é professor e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise e autor do livro “Freud”, editado pela Publifolha. O texto a seguir é um resumo dos principais tópicos abordados na entrevista que o psicanalista concedeu à revista Le Lis Blanc, edição de julho de 2007, onde fala sobre a vaidade, o culto ao corpo e o envelhecimento.
A valorização da vaidade
Nos últimos anos, o desenvolvimento da medicina preventiva, associado aos procedimentos dermatológicos, cirúrgicos ou medicamentosos, fez com que aumentasse a longevidade aliada ao rejuvenescimento físico. Essa idéia – do rejuvenescimento – está presente desde sempre, inclusive na antiguidade. As pessoas sempre perseguiram o ideal de beleza, principalmente o ideal de beleza jovem. Isso era mais comum nas mulheres que lançavam mão de alguns artifícios, mas há alguns anos os homens vêm utilizando as mesmas técnicas.
Idealização da beleza e juventude
A mulher não depende exclusivamente destes fatores para ser mulher, mas depende bastante para se sentir mulher. Neste caso há uma diferença essencial entre ela e o homem no que se refere a talentos, competências, direitos e até mesmo à sedução. Para o homem, essas questões estão ligadas ao exercício do poder, do sucesso profissional, posição financeira e social. No caso das mulheres, com a ascensão no mercado de trabalho elas tiveram que desempenhar o papel de mães e profissionais. Daí o dilema: como conciliar a maternidade, o trabalho e ao mesmo tempo preservar o amor à sua maneira, que, aliás, é diferente da maneira masculina de amar. A questão da aparência torna-se, assim, importante para a mulher e sua apresentação acontece pela roupa, pelos adereços; pelo físico ou pelos sinais de beleza segundo cada cultura. Percebe-se que, por mais que imponha um tom de sobriedade em suas atitudes, ela nunca abandona ou negligencia essa questão.
Excessos na busca do padrão
Essa questão é importante e se relaciona com a maneira como isso tem se desenvolvido, uma vez que é fomentada pelos modelos-padrão de cada época. Nas últimas décadas, a magreza se tornou moda e isso criou uma série de problemas que vão do exercício físico exagerado à questão alimentar. Esse conjunto de elementos tem provocado distúrbios em muitas mulheres, uma vez que o que é glamouroso e jovial é fomentado pela indústria da moda, pelos meios de comunicação, pela publicidade, que, por sua vez, se associa a certos setores da indústria, dos cirurgiões plásticos e academias.
O que leva ao excesso
Um dos motivos é a angústia do envelhecimento. Diria que isso é medo da depressão, de evitar a tristeza por estar envelhecendo. A incapacidade das pessoas se confrontarem com a passagem do tempo para vivenciar sentimentos não é nada fácil, mas em algum momento da vida homens e mulheres terão de encarar a questão de frente. Essa insatisfação, incapacidade, faz com que as pessoas achem que a solução é a intervenção física. Não adianta.
Dificuldade com o envelhecimento
O envelhecimento, a enfermidade e a morte são limitações da nossa onipotência. Os psicanalistas diriam da nossa onipotência narcísica. Nós não nos conformamos com a perda do corpo íntegro, juvenil, da própria vida. Daí que, inconscientemente, buscamos sempre rejuvenescer.
O que gera a angústia do envelhecimento
Principalmente o estado da mente. A vida mental é o fator mais importante para suportar os elementos que trazem a mudança física. As pessoas podem até sofrer por envelhecimento, mas mantêm uma harmonia, um equilíbrio. Aliás, o problema não é sofrer, mas quando, para não sofrer, inventa-se uma fantasia que o tempo não passou, de que é preciso ter sempre 25 anos.
Como ser feliz
A felicidade está ligada à capacidade de tolerância, de suportar as frustrações e as dificuldades; o envelhecimento, à passagem do tempo. De perceber e compreender que o seu filho é do jeito dele e não do seu; de perceber que a vida é maravilhosa. Mas tudo isso é uma trabalho permanente. Agora, se uma pessoa investir toda sua vida apenas no trabalho e para o trabalho, isso terá um preço. Ou você sabe disso agora ou mais adiante vai aparecer a nostalgia, a falta. Uma pessoa para ser feliz precisa, em primeiro lugar, ser um bom companheiro de si próprio.
Fonte: Fibra Notícias - Jornal interno da Fundação Itaipu-BR de Previdência e Assistência Social.