A intervenção na Faceal
"Paciente em estado terminal"
“A nossa principal missão era fazer com que a Patrocinadora pagasse a dívida. A Faceal tinha um patrimônio estimado em US$ 8.847, na época. E a Patrocinadora detinha mais de 80% deste valor. Ela não repassava sua contribuição e ainda se apropriava do desconto dos participantes. Era uma situação irregular, uma apropriação indébita”, afirma o ex-interventor.
Mas logo que ele se debruçou sobre a questão da dívida verificou, como assistido da Previ - um fundo de pensão modelo no Brasil - que o Plano de Benefício da Faceal era uma “miséria”.
“Eu não podia ver colegas com o pires estendido praticamente pedindo esmolas, como, por exemplo, o Dr. Oswaldo Braga, que foi presidente da Fundação e recebia uma complementação de pouco mais de R$ 400,00, quando o salário dele, na época, era de quase R$ 10.000,00. Precisava fazer alguma coisa para melhorar o Plano de Benefício da Faceal”, conta Benedito Graça.
O ex-interventor, que afirma ter adquirido muitos cabelos brancos nos três anos e oito meses em que esteve na missão de salvar a Faceal, diz que não era compreendido por muitos funcionários. “Provavelmente porque eles não queriam que tivéssemos êxito pelo fracasso deles, que foi causado por culpa de um estatuto perverso, que tornava a Fundação um quintal da patrocinadora”. O Estatuto foi a terceira “bactéria” que ele diagnosticou como a causa que “teria levado o paciente ao estado terminal”.
Para o ex-interventor, de nada adiantaria resolver a dívida da patrocinadora se não fosse reformulado o Plano de Benefícios e o Estatuto da Fundação. “Foi duro convencer a SPC, porque a nossa missão era tão somente a questão da dívida. O sindicato, sem entender que estávamos trabalhando para deixar a Fundação enxuta, cobrava o fim da intervenção”, lembra Benedito Graça.
Outra dificuldade que ele disse ter enfrentado é que ninguém tinha conhecimento do que era a Fundação, dos benefícios que a instituição podia proporcionar aos associados e seus familiares. “Visitamos todas as cidades do interior, fazendo reuniões com os funcionários e deixando para eles não apenas a semente, mas também a consciência do que representava um fundo de pensão na vida dos trabalhadores.”
Com o auxílio de dois auditores aposentados do Banco do Brasil, Francisco Pinheiro de Lins e Osvaldo Matias, e Israel Saldanha, Benedito Graça conseguiu, depois de três anos, consolidar o tripé indispensável à sobrevivência da Fundação: a questão da dívida, a reformulação do estatuto e, por último, o Plano de Benefício, garantindo aos participantes 80% de sua renda como assistido.
“Essas conquistas só foram possíveis porque Deraldo teve a coragem de pedir a intervenção. O seu cargo, assim como o dos demais diretores, era uma figura decorativa. Quem mandava na Fundação era a patrocinadora. Hoje é diferente, porque o atual Estatuto é uma arma que protege, que dá autonomia aos gestores de um patrimônio que pertence aos trabalhadores da Ceal”, concluiu Benedito Graça.